Renato Portaluppi só descobriu agora?

Depositphotos / Edição EV

 

No recente dia 23 de setembro, o técnico de futebol Renato Portaluppi pediu seu desligamento do Fluminense Football Club, após um empate e a desclassificação da equipe na Recopa Sulamericana. Chamou muito a atenção o fato de que o treinador tenha acusado incisivamente – como, convenhamos, sempre foi seu estilo – as redes sociais por sua saída. Disse ele que “acabou o futebol, por causa das redes sociais”.

Portaluppi havia sido chamado de “burro” por torcedores no Estádio Maracanã, durante a partida contra o time argentino do Lanús.

Admitamos que a realidade do domínio de setores culturais, econômicos, políticos, sociais e esportivos pelas redes sociais não é nova. Tornou-se famosa uma frase de Umberto Eco. Em 2015 ele afirmou que a internet e as redes sociais deram voz a “legiões de imbecis”. Para ele, antes o “idiota da aldeia” chegava a seu pequeno círculo, e não tinha o alcance atual, muito menos a pretensão de “portador da verdade” -, ou fazia, em maior grau, volume e extensão, a disseminação de informações pouco confiáveis.

Tirante o grau relativo que deve ser atribuído a interpretações no campo de um esporte de massa no Brasil e a tentativa necessária de superação de certo pessimismo, merece reflexão o desabafo de Renato. Afinal, no Mundial de Clubes da FIFA do meio do ano, ele levou o mesmo Fluminense às semifinais e foi muito comemorado por isso nas redes.

Aqui no Rio Grande do Sul há os torcedores gremistas a favor de Renato Portaluppi e os contrários a ele. O professor Lenio Luiz Streck até cunhou, aqui no Espaço Vital, a expressão “renatismo estrutural”, para criticar certo culto à personalidade do futebolista natural de Guaporé, no meio da massa tricolor dos pampas.

É a realidade apresentada. Por fim, observa-se a rede (William J. Mitchell, 2001): apesar de – como Trivinho afirma – não existir apenas “a rede”, mas diversas redes, a Internet se destaca como o ciberespaço mais conhecido e sofisticado do mundo, em meio a outras redes locais e internacionais (Eugênio Trivinho, 1998).

O fenômeno, na verdade, não é tão novo. Em maio de 2011, o então presidente da França, Nicolas Sarkozy, chamou Andrew Keen, Mark Zuckerberg, Eric Schmidt e outros influentes do setor, reunidos em Paris, para debaterem sobre a importância de uma regulação governamental da Internet. O que ouviu de Schmidt foi: “A tecnologia avançará mais rapidamente que os governos, portanto evitem legislar antes de compreender as repercussões” (Andrew Keen, 2011).

Na Sociedade da Informação podem vicejar valores e ações, como a liberdade de expressão, a democracia, a participação. Nela, “o papel da internet ultrapassa a instrumentalidade” e “cria as condições para uma forma de prática comum, que permite a um movimento sem liderança sobreviver, deliberar e expandir-se”. Pode, então, em outra perspectiva e mais otimistamente, transformar-se em redes de indignação e de esperança (Manuel Castells, 2013).

A angústia de Renato Portaluppi é compreensível, certamente como a de tantos brasileiros com menores condições econômicas e de espaço na mídia que ele, assolados por essa nova realidade.

Mas será que ele somente descobriu agora o que os pesquisadores da sociedade tecno digital já sabiam há tantos quadrantes? De se questionar e, é claro, de se observar a complexidade do fenômeno e apresentar contribuições ao debate, com serenidade, foco e método.

Fonte: Este artigo foi originalmente publicado em Espaço Vital Independente e pode ser acessado aqui: https://espacovital.com.br/noticias/renato-portaluppi-so-descobriu-agora-25-09-2025

 

Veja também

Dr. Gonzaga Adolfo - Copyright © 2026 - Todos os direitos reservados.

Menu.

Contato.