Para ele, neste momento de revolução tecnológica, é crucial voltar os olhos para o legado da doutrina social da Igreja Católica.
No dia 8 de maio, a Igreja Católica Apostólica Romana escolheu seu novo líder em um conclave, mais uma vez marcado por surpresas para os chamados vaticanistas. Mais uma vez, foi escolhido como pontífice um cardeal que não constava na lista dos favoritos: Robert Francis Prevost. Reapareceu a máxima: “Entra no conclave papa, sai cardeal”, para alguns preteridos.
O cardeal norte-americano por nascimento e peruano por opção logo encantou a todos com sua simpatia, serenidade e um apelo comovente à “paz desarmada”, exortação que fez novamente em sua primeira fala da janela superior central da Igreja do Vaticano, no Angelus do domingo ao meio-dia, em 11 de maio. No encontro com jornalistas de todo o mundo, nesta segunda-feira, 12 de maio, às 12 horas, voltou ao mesmo foco, ao propor também “desarmar as palavras”.
Em rituais, cerimoniais e gestos sempre marcados por profundos significados, o bispo de Chiclayo transmitiu sua primeira mensagem já na escolha de seu nome como papa. Leão XIV é uma homenagem e uma forte lembrança a Leão XIII, o papa que não apenas conduziu o catolicismo até o século 20, mas também ficou conhecido como “o papa dos trabalhadores”. Ele é merecidamente reconhecido como aquele que criou e consagrou a chamada doutrina social da Igreja, principalmente a partir da Encíclica Rerum Novarum, de 15 de maio de 1891.
No primeiro desses documentos, o Vaticano manifestava, há exatamente 134 anos, sua preocupação com a situação dos trabalhadores ao redor do mundo. Naquele momento, o foco principal era o trabalho, especialmente diante da substituição da mão de obra humana pelas máquinas oriundas da Revolução Industrial.
A humanidade superou o conturbado século 20 — ou “breve século 20”, segundo Eric Hobsbawm —, e chegamos praticamente ao final da terceira década do século 21, sempre com preocupações sociais, políticas e econômicas — e teológicas, é claro — sobre a condição humana. Especialmente com a dignidade da pessoa humana como valor supremo em um mundo que, por um lado, exibe progressos tecnológicos maravilhosos, mas, por outro, expõe a guerra, a fome, o desemprego, as agressões ao meio ambiente, o ódio e as injustiças.
Poderíamos dizer, com Aldous Huxley, “admirável mundo novo”. Mas também não seria irracional nos referirmos ao “preocupante mundo velho”. A humanidade continua repleta de realidades maravilhosas e, ao mesmo tempo, de situações ameaçadoras.
Uma delas, sem sombra de dúvida, é a da inteligência artificial generativa. Qualquer pesquisador que se aprofunde no tema afirmará e demonstrará que ela representa uma oportunidade, ao mesmo tempo em que pode ser uma ameaça. O novo titular do trono de São Pedro já abordou o tema em algumas ocasiões desde sua eleição. Para ele, neste momento de revolução tecnológica, é crucial voltar os olhos para o legado da doutrina social da Igreja Católica.
Católicos ou não, acompanhemos o diálogo proposto. Quem sabe, em vez de “Das coisas novas”, a próxima encíclica papal tenha como tema “As coisas novíssimas”.
Luiz Gonzaga Silva Adolfo é advogado em direitos autorais há 34 anos, doutor em Direito e professor de Direito.
Fonte: Este artigo foi originalmente publicado em Extra Classe e pode ser acessado aqui: https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2025/05/o-novo-papa-a-doutrina-social-da-igreja-e-a-inteligencia-artificial/




