A Igreja Católica e o debate histórico sobre a I.A.

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Quando foi eleito superior máximo da Igreja Católica, há um ano, o então cardeal Robert Francis Prevost escolheu o nome Leão XIV.  Logo os vaticanistas fizeram associação à homenagem ao Papa Leão XIII, que foi pontífice de 1878 a 1903. Como sabemos, este foi período histórico de muitas transformações na história humana, mormente aquelas oriundas da pulsante Revolução Industrial.

Em 15 de maio de 1891, o então Papa Leão XIII publicou a encíclica Rerum Novarum (Das Coisas Novas), considerada a carta social da Igreja Católica. Na pauta de então, os direitos da classe trabalhadora, a justiça social, especialmente as condições dos operários naquele período pós-Revolução Industrial – isso no mundo mais desenvolvido economicamente, já que aqui no capitalismo tardio da América Latina tudo ainda era incipiente, neste domínio.

Pois Leão XIV, em mais uma escolha repleta de simbolismos, escolheu justamente a data de aniversário da Rerum Novarum, para neste dia 15 de maio de 2026, expedir a primeira carta de seu papado, intitulada Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade). Tudo já levou alguns intérpretes a denominarem a “Rerum Novarum Digital”.

No documento, a Igreja Católica reitera sua posição já manifestada nos últimos tempos – inclusive na gestão do Papa Francisco -, pelo uso ético e social da inteligência artificial, colocando-se a dignidade da pessoa humana no centro do processo. Trata o líder máximo do catolicismo de temas como paz, justiça social e o futuro do labor humano na sociedade tecno digital.

Leão XIV tem alertado ultimamente sobre os riscos do uso descontrolado da inteligência artificial, sustentando que a tecnologia é ferramental suplementar à Inteligência humana, e não sua substituta. Põe ele destaque na responsabilidade humana (e consequentemente empresarial) sobre os algoritmos.

O Vaticano promoveu reuniões com especialistas em tecnologia, como o seminário da Pontifícia Academia das Ciências Sociais, para embasar o documento, enfatizando a relevância da “alfabetização digital” e da ética na produção de conteúdos.

Esta preocupação papal não é nova. Em sua primeira celebração eucarística como pontífice, realizada na Capela Sistina logo após o conclave de maio de 2025, o Papa Leão XIV advertiu que o “culto à tecnologia, ao dinheiro e ao poder” vem ocupando o lugar da fé cristã no mundo contemporâneo.

Na ocasião, o Papa manifestou preocupação de que a confiança excessiva em tecnologia, dinheiro e poder esteja suplantando a fé e a busca por Deus. Ressaltou que, apesar dos benefícios proporcionados pela tecnologia, ela não substitui as relações humanas autênticas e pessoais. O Sumo Pontífice solicitou responsabilidade e discernimento no emprego da inteligência artificial, advertindo contra sua utilização para espalhar desinformação, incitar ódio ou promover conflitos. Defendeu que as ferramentas digitais devem servir para aproximar as pessoas, e não para gerar bolhas ou divisão.

A Igreja Católica se soma assim aos milhões de vozes que sem contestar a necessidade constante de evolução tecnológica – este evidentemente nunca seria o foco -, se colocam em posição crítica, principalmente no sentido de que esta tecnologia, como as demais, é meio e não fim. Vale dizer, estando e sendo o ser humano o centro do processo, é necessário que criemos mecanismos dos mais variados naipes (tecnológicos, sociais, jurídicos…), deste controle humanístico do processo.

Pode parecer utopia, mas é o caminho que se descortina.

Afinal de contas, não é de hoje, mas de longa data que cotidianamente nos emocionamos e nos renovamos enquanto civilização com a nossa magnífica humanidade.

Fonte: Este artigo foi originalmente publicado no Espaço Vital Independente e pode ser acessado aqui: Acesse

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